
Há momentos na carreira de todo pesquisador em que o “não” é tão importante quanto o “sim”. Depois de mais de 20 anos conduzindo e participando de estudos clínicos em onco-hematologia, aprendi que dizer não a certos protocolos pode ser um dos atos mais éticos e responsáveis que exerço, tanto pela ciência quanto, principalmente, pelos pacientes.
Quando um novo estudo chega à minha mesa, não começo pela página de objetivos ou pelo sponsor. Começo por uma pergunta simples e direta: este estudo realmente vai mudar algo na vida dos meus pacientes?
O que eu analiso primeiro?
Olho para três pilares, nessa ordem:
- Relevância clínica real — a pergunta científica é relevante para a prática atual? Muitas vezes recebo protocolos que testam uma nova droga com ganho mínimo (por exemplo, 1-2 meses de sobrevida livre de progressão sem melhora na qualidade de vida). Nesses casos, o “não” vem rápido.
- População e desenho — será que o perfil dos pacientes do estudo reflete quem eu vejo no consultório? Idosos frágeis, comorbidades, realidade brasileira? Se o estudo exclui exatamente os pacientes que mais precisam, fico desconfiada.
- Impacto potencial versus risco/benefício — há inovação de verdade ou apenas “mais do mesmo”? Valorizo muito estudos que buscam de-escalada terapêutica, redução de toxicidade, marcadores preditivos ou abordagens que respeitem a individualidade do paciente.
O que pesa mais? O impacto real na vida das pessoas. Prefiro um estudo menor, bem desenhado e com pergunta relevante do que um grande estudo internacional que não responde nada novo para o nosso contexto.
Como minha visão mudou ao longo dos anos?
No início da carreira, eu me empolgava com quase todo protocolo que chegava. Queria participar de tudo, publicar, estar “na fronteira”. Achava que quantidade era sinônimo de relevância.
Hoje, com mais de duas décadas de experiência, minha lente é outra. Aprendi que tempo é o bem mais precioso dos pacientes, assim como o meu. Valorizo muito mais estudos que questionam dogmas antigos, que trazem opções para populações sub-representadas ou que realmente melhoram qualidade de vida, não apenas números em uma curva de Kaplan-Meier.
Mudei de “quero estar em todos os estudos importantes” para “quero estar apenas nos estudos que realmente importam”. Essa seletividade me permite dedicar mais energia aos projetos que realmente acredito e, principalmente, defender melhor os interesses dos pacientes.
O que faz uma pesquisa ter impacto real para os meus pacientes?
Quando leio um protocolo e consigo visualizar claramente como ele pode ajudar a Sra. Maria, de 72 anos, com linfoma folicular recidivado ou refratario, ou o Sr. João, de 45 anos, com leucemia linfocítica crônica, eu sei que vale a pena.
As características que mais me comovem são:
- Respeito à individualidade — estudos que incorporam idade, comorbidades, preferências do paciente e qualidade de vida como desfechos principais.
- Inovação que resolve problemas reais — novas drogas ou combinações que reduzem idas ao hospital, diminuem toxicidade ou abrem portas para pacientes que antes não tinham opções.
- Transparência e ética — termos de consentimento bem elaborados, monitoramento rigoroso, possibilidade real de saída do estudo sem prejuízo.
- Relevância para o nosso contexto — estudos que consideram a realidade brasileira, custos, acesso e disparidades.
No final, a pergunta que sempre volta é: se eu fosse o paciente (ou minha mãe, ou o meu filho), eu gostaria que este estudo fosse oferecido? Se a resposta for “talvez” ou “não sei”, geralmente é “não” para mim como investigadora.
Ser pesquisadora não é apenas assinar protocolos. É exercer um papel de guardiã, da ciência séria, da ética e, acima de tudo, do bem-estar de quem confia a nós sua vida.
Dizer “não” para o que não inova é, muitas vezes, a forma mais honesta de dizer “sim” para o que realmente importa.